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Cultura - 12/03/2010
O canto preciso do pássaro-títere
Na terra dos mamulengos, um espetáculo que une uma técnica de títeres japonesa, praticamente desconhecida no Nordeste, ao canto lírico e à música clássica. E pasmem: tudo isso para crianças! Em "Ah, Cambaxirra, se eu pudesse", peça que integra a programação do IV Festival BNB de Artes Cênicas, a precisão da técnica Bunraku (tipo de manipulação direta de bonecos) se une ao texto da escritora Ana Maria Machado, importante nome da literatura infantil nacional.

O universo da peça mostra a luta de uma ave em favor da árvore mais bonita da floresta, ilustrando a questão do quanto impotente se sente o sujeito diante dos diversos poderes com os quais tem de se deparar.Responsável pela adaptação, encenação, direção de arte, confecção cenográfica, arquitetura de luz, o teuto-brasileiro Ricardo Schöpke, da Cia. Boto-Vermelho, explica que, além do seu grupo, somente mais dois dominam a arte do Bunraku no Brasil. São eles: Sobrevento e Cia. Pequod. "É uma técnica que vem se desenvolvendo desde o século XVII no Japão. Funciona quase como um sacerdócio. A precisão ritualística, para eles, é muito importante", explica.

Aqui, através de uma releitura, acrescentando pitadas da cor local, o Bunraku adquiriu outra cara, tão menos demorada em termos de preparação. "Ao todo, são necessários três manipuladores para fazer os movimentos do personagem. No Japão, o mestre, que é responsável pela manipulação da cabeça e do braço esquerdo, só se apresenta depois de 10 anos de ensaio", exemplifica.

Mesmo assim, no Brasil, "simplificando" a técnica, são necessários cerca de dois a três meses de ensaio "pesado" para harmonizar os três manipuladores, num trabalho que exige além de concentração, muita preparação física e articulação entre os atores. "Um dos desafios maiores é conseguir ser um ator-neutro para que o boneco ganhe destaque. Não é um capuz preto sobre o rosto que vai fazer isso, é a força da manipulação que determina. O ator não deve imitar o gesto do personagem, deve ser generoso para fazer com que este se sobressaia", afirma.

Durante as oficinas, que também integraram a programação do Festival até ontem, os alunos tiveram contato com a técnica original, história, figurino, música e dramaturgia do Bunraku. A partir da leitura de textos, tendo como base a "Cambaxirra", as aulas dão uma noção da importância da integração entre os manipuladores. "A intenção é a de que o movimento saia de alguma maneira, esquadrinhando o corpo do ator para que ele se faça de boneco e também transmita isso para o personagem", afirma.

Literatura e teatro

Ricardo Schöpke, também crítico de teatro infantil e juvenil do Jornal do Brasil (de acordo com o próprio, o único do Rio de Janeiro), pensou na ideia da adaptação do livro de Ana Maria com a intenção de fazer o diálogo entre literatura e teatro. Depois de ter sido o curador da exposição sobre os 30 anos de carreira da escritora, partiu para o projeto de "Cambaxirra". "Através da técnica do conto cumulativo, quando cada um dos personagens repete sempre a mesma resposta dizendo que nada pode fazer para impedir a derrubada da árvore, é que se reforça a mensagem para as crianças", assinala.

Com enfoque na temática de amor à natureza, o espetáculo, acredita Ricardo, vai desenhando aos poucos, para as crianças, a descoberta dos diversos poderes que "comandam" a sociedade, a ponto de a Cambaxirra anunciar que vai falar com o mundo todo para resolver o problema. "E aí entra a mensagem do ´unidos, venceremos´. A resposta do imperador não poderia ser outra: ´com todo mundo junto, eu tenho medo". Tendo como pano de fundo a Europa medieval, a história adaptada por Ricardo conta com nobres de diferentes nacionalidades. O barão é italiano; o conde, francês; o visconde, português; o duque, inglês; o marquês, espanhol; e o imperador, alemão. Tudo para permitir o intercâmbio entre as culturas. "Faço os dois caminhos. Quando vamos para a Alemanha, levamos as lendas e mitos brasileiros". Na trilha sonora da peça, uma atriz e cantora lírica executa a ária "Bachianas brasileiras n.05", de Villa-Lobos, "Lácio Ch´io Pianga", da ópera Rinaldo de Handel e o clássico da ópera mundial: "Lakme", de Léo Delibes. Um violoncelista da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro também executa um repertório de música clássica ao vivo.

Pisando pela primeira vez em Fortaleza, o diretor aponta o Nordeste como uma das referências nacionais na arte de bonecos, em especial o mamulengo. Com vasta experiência produzindo teatro infantil, o crítico diz que na área são poucos os grupos brasileiros que verdadeiramente se preocupam com a questão da descoberta da linguagem para as crianças, num conceito de encarar o teatro como arte total. "Ainda há aquele modelo de cópia chatíssimo de buscar as histórias do Walt Disney, sem adaptar o enredo para questões e linguagens contemporâneas. São raros os grupos que levantam a bandeira do teatro voltado para a inteligência das crianças, sua formação cognitiva e sensorial", reflete.

Fique por dentro
Bonecos com vida

A técnica BUNRAKU é extremamente delicada e precisa. Os títeres são miniaturas quase perfeitas dos seres humanos - medem em média 80cm de altura e possuem articulações nos pés, joelhos, cintura, pulsos, cotovelos e pescoço. São manipulados por três atores/manipuladores com eficiência matemática. O manipulador principal é o mestre, que fica responsável pela cabeça (cérebro e fio condutor do títere) e pelo braço esquerdo; o segundo manipulador é o assistente, responsável pelo braço direito e a cintura; o terceiro manipulador responde pelas pernas e pés. É necessária muita concentração e perícia para dar vida aos bonecos.

Mais informações

"Ah, Cambaxirra, se eu pudesse". Hoje, às 15h30 no Centro Cultural Banco do Nordeste de Sousa. Amanhã, às 15h30, no CCBNB de Juazeiro de Norte. Domingo, às 15h e 17h, no CCBNB de Fortaleza



Foto: Diário do Nordeste
Fonte: Diário do Nordeste


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